Fazer um orçamento familiar é listar, no início de cada mês, o dinheiro que entra e o dinheiro que sai, para saber o que sobra e decidir antes de gastar. Bastam seis passos: somar os rendimentos líquidos, registar as despesas, classificá-las, calcular o saldo, pôr a poupança de lado logo no início do mês e rever o orçamento todos os meses. É também a primeira ferramenta para evitar e resolver dívidas.
Orçamento familiar em resumo
| Quando fazer | No início de cada mês, com um orçamento anual para as despesas que só aparecem uma vez por ano |
| Rendimentos a contar | Só os valores líquidos e certos, como salário ou pensão |
| Despesas a registar | Todas, separadas em fixas e variáveis, necessárias e supérfluas |
| Conta principal | Saldo = total de rendimentos menos total de despesas |
| Poupança | Tratada como uma despesa fixa, posta de lado no início do mês |
| Ferramentas gratuitas | Simulador do orçamento familiar do portal Todos Contam |
| Ajuda com dívidas | Rede de Apoio ao Cliente Bancário (RACE), com apoio gratuito |
Porque vale a pena fazer um orçamento familiar
Sem orçamento, o dinheiro tende a desaparecer em pequenas despesas e o fim do mês chega antes do salário. Com orçamento, fica claro para onde vai cada euro e onde se pode cortar.
O Banco de Portugal descreve o orçamento como uma ferramenta para organizar as finanças e planear as despesas de acordo com os objetivos da família. Ajuda em decisões grandes, como comprar casa ou carro, e na criação de um fundo de emergência para imprevistos.
Para quem já tem dívidas, o orçamento é ainda mais importante. É a base de qualquer negociação com o banco: mostra quanto consegue pagar por mês, com números reais.
Como fazer um orçamento familiar em 6 passos
Os passos seguem a lógica proposta pelo Banco de Portugal no guia como elaborar um orçamento familiar, com dicas práticas para cada um.
1. Some os rendimentos líquidos certos
Escreva todo o dinheiro que entra no agregado familiar num mês, sempre em valores líquidos, ou seja, depois de impostos e descontos. Use o valor que chega à conta, e não o salário bruto do contrato.
Conte apenas rendimentos certos, como o salário, a pensão ou uma renda que recebe todos os meses. Deixe de fora o que não é certo: comissões de vendas, prémios anuais, horas extra ocasionais ou prendas. Se esse dinheiro entrar, é um extra para poupar ou pagar dívidas.
2. Registe todas as despesas
Este é o passo que dá mais trabalho e o que mais ensina. Pegue nos extratos bancários dos últimos dois ou três meses e anote todos os pagamentos, incluindo os pequenos: cafés, aplicações, subscrições, levantamentos em dinheiro.
Não se esqueça das despesas anuais ou semestrais, como seguros, IUC, IMI, material escolar ou revisões do carro. Some o valor anual e divida por 12. Assim, esse dinheiro fica guardado aos poucos, todos os meses, e não apanha a família de surpresa.
3. Classifique as despesas
Separar as despesas mostra onde há margem para mexer. O Banco de Portugal sugere duas classificações:
- Necessárias ou supérfluas. Necessárias são alimentação, habitação, saúde, educação e vestuário básico. Supérfluas são, por exemplo, restaurantes, viagens e lazer, que podem ser reduzidas ou cortadas.
- Fixas ou variáveis. Fixas são as que não dependem do consumo, como a renda ou a prestação da casa. Variáveis dependem do consumo, como supermercado, luz, água e gás.
Quanto maior o peso das despesas fixas, mais difícil é aguentar um imprevisto, como uma doença ou uma situação de desemprego. Para medir quanto do rendimento vai para créditos, veja como calcular a taxa de esforço.
4. Calcule o saldo
A conta é simples: saldo igual a total de rendimentos menos total de despesas. Se o saldo for positivo, há margem para poupar. Se for negativo, a família gasta mais do que recebe e o orçamento tem de ser revisto, cortando despesas ou, se possível, aumentando rendimentos.
5. Ponha a poupança de lado no início do mês
O erro mais comum é poupar “o que sobrar”. Quase nunca sobra. O Banco de Portugal recomenda o contrário: tratar a poupança como uma despesa fixa e separá-la logo que o mês começa.
Defina um objetivo concreto, como criar um fundo de emergência, e uma meta a 3, 6 ou 12 meses. Uma transferência automática para outra conta, no dia em que recebe o salário, ajuda a cumprir.
6. Acompanhe e reveja todos os meses
Um orçamento só funciona se for comparado com a realidade. No fim de cada mês, veja onde gastou mais do que previa e ajuste o mês seguinte. Reveja também sempre que algo muda: novo emprego, nascimento de um filho, subida da prestação da casa.
Exemplo de orçamento familiar mensal
Este é um exemplo fictício de um casal com um filho, apenas para mostrar a estrutura.
| Rendimentos líquidos | 1 850 € |
| Prestação da casa | 650 € |
| Supermercado | 380 € |
| Luz, água, gás e internet | 160 € |
| Transportes e combustível | 180 € |
| Crédito pessoal | 120 € |
| Saúde e escola | 90 € |
| Despesas anuais a dividir por 12 (seguros, IUC) | 60 € |
| Lazer e restaurantes | 100 € |
| Poupança | 100 € |
| Saldo | 10 € |
Neste caso, o saldo é positivo mas apertado. Qualquer imprevisto obriga a mexer no lazer ou na poupança. Se a prestação da casa subir, a família deve agir logo, e não esperar pelo primeiro atraso.
E a regra 50/30/20?
É uma regra prática comum, muito divulgada, para dividir o rendimento líquido: 50% para necessidades, 30% para desejos e 20% para poupança e amortização de dívidas. Não é uma regra oficial nem uma obrigação. Serve como ponto de partida.
Em muitas famílias, só a habitação já ocupa uma grande parte do rendimento, e o método não encaixa. Nesse caso, o mais útil é seguir os seis passos e procurar cortes onde eles existem de facto.
O orçamento não fecha: o que fazer com as dívidas
Se o saldo for negativo mês após mês, cortar no café não chega. É altura de olhar para os créditos.
- Fale com o banco antes de falhar. Os bancos têm de acompanhar o risco de incumprimento e, quando o cliente avisa, apresentar propostas. Se já falhou uma prestação, entra em jogo o PERSI, o procedimento de negociação obrigatória.
- Calcule o custo dos atrasos. Cada prestação em atraso soma juros e uma comissão. O guia sobre juros de mora mostra quanto custa atrasar.
- Avalie se juntar créditos ajuda. Uma prestação única mais baixa pode aliviar o mês, mas pode sair mais cara no total. Leia antes o guia sobre consolidação de créditos.
- Peça apoio gratuito. A Rede de Apoio ao Cliente Bancário (RACE) ajuda, sem custos, quem está em risco de não pagar ou já está em atraso.
Perguntas frequentes
Quando devo fazer o orçamento familiar?
No início de cada mês, antes de gastar. Vale a pena fazer também um orçamento anual, para planear as despesas que surgem apenas uma vez por ano.
Devo contar prémios e comissões no orçamento?
No orçamento mensal, conte apenas os rendimentos certos de cada mês. Prémios e comissões incertas ficam de fora e, quando chegam, podem ir para a poupança ou para pagar dívidas.
Qual a diferença entre despesas fixas e variáveis?
As fixas não dependem do consumo e não se cortam a curto prazo, como a renda ou a prestação da casa. As variáveis dependem do consumo, como supermercado ou eletricidade, e podem ser reduzidas.
Quanto devo poupar por mês?
Não há um valor oficial. O importante é definir um objetivo e uma meta, e separar esse valor logo no início do mês, como se fosse uma despesa fixa.
Existe algum simulador gratuito de orçamento familiar?
Sim. O portal Todos Contam, do Plano Nacional de Formação Financeira, tem um simulador do orçamento familiar e um simulador da poupança, ambos indicados pelo Banco de Portugal.
Comece hoje
Reserve uma hora, junte os recibos de vencimento e os extratos dos últimos três meses e preencha os seis passos numa folha de papel ou de cálculo. Pode também usar o simulador do orçamento familiar do Todos Contam.
No fim do primeiro mês, compare o previsto com o real. É nessa comparação que aparecem as poupanças que ninguém via.
Tem dívidas que já não consegue pagar?
Descreva a sua situação. O pedido é enviado para a equipa de advogados de advogados-insolvencias.pt, que analisa o caso e o contacta.
